
Antes de chegar às maiores quadras do tênis mundial, a trajetória de Paula Capulo Souza começou de forma despretensiosa, ainda na infância, em Porto Alegre. Foi o incentivo de um vizinho, que trabalhava no encordoamento de raquetes, que despertou sua curiosidade pelo esporte.
Mais do que aprender a bater na bola, Paula encontrou no Petrópole Tênis Clube, na zona norte da capital gaúcha, um espaço de convivência e pertencimento. O tênis lhe deu uma verdadeira comunidade de amigos, com quem dividiu a infância e a adolescência, e foi também uma escola de valores: disciplina, respeito, perseverança, responsabilidade e comprometimento passaram a fazer parte de sua formação muito antes de se tornarem exigências da profissão que escolheria anos depois.
Ainda adolescente, Paula já tinha uma certeza: queria construir sua vida profissional dentro do tênis. Mas apesar de gostar profundamente do esporte, não se identificava com a rotina das competições — competir não a motivava. Foi então que descobriu a arbitragem — um universo que unia seu interesse pelo esporte ao desafio de estudar, dominar regras, tomar decisões e assumir responsabilidades dentro da quadra.
Determinada a seguir esse caminho, fez o curso de árbitra auxiliar e passou a conciliar a nova atividade com os estudos no colégio. Nos fins de semana, então com 16 anos, percorria cidades do interior do Rio Grande do Sul, atuando em torneios juvenis, acumulando experiência prática ao mesmo tempo em que aprofundava seus conhecimentos sobre o esporte.
A carreira foi sendo construída degrau por degrau. Na arbitragem, não há atalhos. Cada avanço exige estudo constante, cursos de atualização, avaliações rigorosas, desempenho prático e muitas horas de trabalho em competições. Enquanto sua trajetória profissional ganhava força, Paula também buscou formação acadêmica. Ingressou nos cursos de Educação Física e Hotelaria. Embora não tenha concluído nenhuma das graduações, elas contribuíram para ampliar sua visão sobre atendimento, gestão de pessoas, organização e comportamento — competências que também fazem diferença em sua profissão.
Em 2004, deu um passo decisivo ao participar, na Argentina, de um curso promovido pela Federação Internacional de Tênis (ITF – International Tennis Federation), buscando conquistar a certificação White Badge. A credencial integra um sistema progressivo de formação, no qual cada etapa exige experiência, desempenho e novas avaliações. Foi o início de uma caminhada que a levaria, anos depois, a alcançar o mais alto reconhecimento da arbitragem mundial.

Foi também no circuito do tênis que Paula encontrou seu grande parceiro de vida. Casou-se com Fábio Souza, baiano e, como ela, árbitro. Juntos, eles formam um casal ímpar: são os únicos representantes do país a possuir a certificação Gold Badge, certificação máxima da arbitragem internacional do tênis, reservada aos profissionais mais experientes e respeitados da modalidade.
A base da família é Porto Alegre, onde vivem com Bethânia, de 7 anos. O nascimento da menina transformou a dinâmica do casal. Se antes Paula e Fábio viajavam juntos, hoje coordenam cuidadosamente suas agendas e se revezam, para que um deles esteja sempre acompanhando a filha. Ela está crescendo acompanhando torneios e entende, desde cedo, que as constantes viagens dos pais são movidas pela paixão pelo esporte e pelo compromisso com a profissão.
Além de ter uma vida sem rotina, a carreira proporciona a Paula uma bagagem que vai muito além das quadras. Ao longo dos anos, seu trabalho já a levou a mais de 35 países, acumulando experiências culturais e profissionais únicas. Além de atuar em partidas nos principais torneios do mundo, ela coordena um programa da Federação de Tênis Feminino (WTA – Women’s Tennis Association), voltado ao desenvolvimento da arbitragem feminina e ministra cursos de formação, contribuindo para a formação de novas gerações de profissionais. Em seu currículo estão alguns dos mais importantes torneios do calendário internacional, incluindo os quatro Grand Slams, além das Olimpíadas de Londres, em 2012, e do Rio de Janeiro, em 2016.
Quando finalmente encontra uma pausa entre uma viagem e outra, o destino preferido é justamente aquele de onde tantas vezes precisa partir: a própria casa. É ao lado de Fábio e Bethânia que ela recupera as energias. Gosta de cozinhar para a família e aproveitar a rotina simples do lar — um contraponto tranquilo à intensidade dos aeroportos, dos grandes estádios e das decisões tomadas diante de milhares de espectadores.
Sua trajetória demonstra que, no tênis, o protagonismo nem sempre pertence a quem segura a raquete. Muitas vezes, ele está com quem faz o jogo acontecer com justiça, serenidade e excelência. Uma carreira construída com discrição, competência e dedicação, que levou uma menina de Porto Alegre aos maiores palcos do esporte mundial e a transformou em uma referência da arbitragem internacional.
