Aos 72 anos, quando muitos decidem diminuir o ritmo, a jornalista Alice Urbim escolheu exatamente o caminho contrário: acelerou. Depois de uma vida dedicada a uma das maiores empresas de comunicação do Brasil, ela atravessa agora um dos momentos mais significativos de sua trajetória, assumindo o protagonismo em um projeto autoral, que tem sua voz, sua cara e traduz sua visão de mundo.
Por mais de quatro décadas, Alice esteve nos bastidores. Liderou equipes, formou profissionais, desenvolveu conteúdos e ajudou a construir algumas das iniciativas mais importantes do audiovisual gaúcho e brasileiro. Entre elas, ações e programas premiados como Histórias Curtas e Curtas Gaúchos, que abriram espaço para gerações de realizadores e contribuíram para fortalecer a produção cultural no Rio Grande do Sul.
Durante anos, sua missão foi criar oportunidades para que outras histórias fossem contadas. Agora, é ela que ganha voz e fala diretamente ao público. Desde novembro de 2025, Alice comanda o Pé na Porta, um videocast em que recebe homens e mulheres que criam, produzem e fazem a diferença em suas áreas de atuação. As entrevistas são publicadas semanalmente em seu canal no YouTube e em outras plataformas de streaming, como o Spotify.

O nome do projeto nasceu de uma pesquisa sobre a maturidade, que Alice chama de a segunda curva da vida. Encontrou as ideias do escritor estadunidense Arthur Brooks, que propõe três caminhos possíveis para essa fase: o primeiro é negar o envelhecimento, atitude que Alice definiu, com humor, como “pé na cova”. O segundo é aceitar passivamente a passagem do tempo, que ela chama de “pé na pantufa”. Já o terceiro caminho — aquele que escolheu para si — consiste em desenvolver novas habilidades, aprender coisas novas e continuar se reinventando. É com o “pé na porta” que ela assume uma postura ativa diante da vida e uma recusa a aceitar que existe idade para parar de criar, realizar e sonhar.
Mais do que um programa de entrevistas, tornou-se uma plataforma da sua reinvenção 70+. Com a escuta generosa de quem acumulou décadas de experiência e a curiosidade de quem continua aprendendo, Alice conduz conversas que desafiam estereótipos e mostram que a idade não determina limites para a criatividade, para o trabalho ou para os sonhos.
Quando encerrou sua passagem pelo Grupo RBS, em 2019, ela voltou a estudar, ampliou conhecimentos, aprofundou reflexões e passou a dedicar-se a uma causa que se tornaria central em sua atuação: o combate ao etarismo. Hoje, Alice é uma das vozes mais respeitadas quando o assunto é envelhecimento, longevidade, combate ao etarismo e reinvenção na maturidade. Sua atuação contribui para ampliar o debate sobre a forma como a sociedade enxerga as pessoas mais velhas, mas vai além da denúncia dos preconceitos. Ela defende uma visão ativa e contemporânea da longevidade, na qual experiência, aprendizado contínuo e capacidade de transformação permanecem como motores de realização pessoal e profissional em qualquer idade. Como palestrante, mestre de cerimônia e mediadora de debates, ela cumpre seu desejo de inspirar pessoas.
Em sua trajetória, Alice enfrentou perdas profundas. A mais marcante delas foi a morte de Carlos Urbim, seu companheiro desde os 20 anos, parceiro de vida, de projetos e de afetos, e com quem teve dois filhos, Emiliano e Glauco. Mas com a resiliência que herdou dos pais, ela transforma os problemas e dores em combustível para continuar em ação.
Uma curiosidade a seu respeito, e que costuma chamar a atenção, é o seu hábito de vestir-se sempre de preto. Longe de representar formalidade excessiva ou uma escolha estética calculada, a decisão nasceu da praticidade. Alice considera desgastante perder tempo combinando cores e planejando diferentes composições de roupas. Adotar o preto tornou-se uma forma simples de economizar tempo, energia e dinheiro, permitindo concentrar sua atenção no que realmente considera importante: ideias e pessoas.

Alice construiu sua vida acreditando no poder das histórias. Durante décadas, ajudou outras pessoas a encontrar voz, espaço e visibilidade. Hoje, ao assumir seu próprio lugar de fala, mostra que a maturidade pode ser um tempo de expansão, descoberta e protagonismo. Sua história é a prova de que nunca é tarde para recomeçar, aprender algo novo ou ocupar espaços antes inimagináveis. Afinal, para quem escolheu viver com o pé na porta, o futuro promete infinitas conquistas e possibilidades.
