
Letras. Letras de música. Porque as músicas, não se sabe como, realçam as letras. Mais que isso: fazem-nas dizer. Levam-nos ou nos trazem para um momento em que estamos finalmente representados. Sem nem precisar das palavras das letras. Só com as melodias, o começo e o melhor de nós que viemos delas. Temos sede de água, fome de comida, mas também fome e sede de representação. Precisamos dizer e sermos ouvidos.
A letra de “Como la cigarra”, de Mercedes Sosa, por exemplo. Realçada pela melodia, a poeta canta que compareceu sozinha a seu próprio enterro. Não tomemos a letra ao pé da letra. Toca-nos a sua canção, e basta. Morremos em vida, muitas vezes. Depois relançamo-nos, desde que tenhamos podido olhar para aquela morte – vivê-la, de certa forma –, daí a metáfora de comparecer ao próprio enterro: “Tantas veces me mataron/ tantas veces me morí/ Sin embargo, estoy aqui/ Resucitando”.
A psicanálise chama de elaboração, mas aqui falta melodia em seu conceito. O budismo, mais cantante, diz melhor, ao recorrer à “grata aceitação”, essa ideia de que é preciso tolerância com o que não saiu bem. Um dia, sairá melhor. Aqui a psicanálise volta mais taluda com a ideia de que sofrer faz parte. E até convém, assim como qualquer possibilidade de preenchimento terá de lidar com a realidade do que falta (“igual que sobreviviente/ qui vuelve de la guerra”). Não convém sedar tão somente.
Vale o mesmo para a ideia de que limites e enquadres são absolutamente necessários, caso contrário o ganho desmedido descamba: “Gracias doy a la desgracia/ y a la mano con punal/ Porque me mato tan mal/ Y seguí cantando.” É o que parece expressar a cigarra de Mercedes, em sintonia com o poeta Quintana, aquele que cantava vir à tona de todos os seus naufrágios. Às vezes, é necessário antes naufragar para navegar depois. Desde que tenha havido ritmo no começo, daí os versos não estarem traduzidos. Mortes não podem ser traduzidas. Mas precisam ser vividas para que o silêncio em torno delas consiga finalmente cantar.
Celso Gutfreind é Psicanalista e Escritor