
Uma das variedades mais antigas do mundo, a uva Moscatel é reconhecida por sua doçura natural e pela produção de espumantes geralmente com acidez equilibrada, aromas florais e com notas de frutas como pêssego, damasco, bergamota e mel. Mas um produto diferente tem chamado a atenção de apreciadores das borbulhas: os espumantes moscatéis envelhecidos.
Enquanto os tradicionais são dedicados às sobremesas leves, e ainda assim sofrem alguns preconceitos por conta da doçura – aliás, preconceitos infundados, uma vez que esse tipo de produto tem o seu momento perfeito de consumo –, um novo nicho de mercado começa a ganhar seguidores com os espumantes moscatéis envelhecidos, que evoluem e têm mudadas as características, que se transformam nos aromas, sabores e harmonizações.
Além de ganhar tons mais dourados, o espumante evoluído remete à casca de laranja cristalizada, melaço, caramelo, lembrando vinhos de sobremesa, como Porto, Jerez e Marsala, com a vantagem de que apresentam o gás carbônico, que preserva o frescor.

O enólogo e proprietário da vinícola Cave Antiga, João Carlos Taffarel, conta que começou a guardar uma parcela dos espumantes tradicionais desde 2008, sempre avaliando o desenvolvimento da bebida, com análises sensoriais. E ao longo do tempo foi percebendo que esses espumantes iam adquirindo características muito interessantes e um valor agregado. E foi com satisfação que viu os produtos ganharem medalhas em diferentes concursos.
A Cave Antiga está localizada em Farroupilha, município que detém a Indicação Geográfica de Procedência para vinhos finos moscatéis. Isto porque, além de ser a maior produtora de uvas moscatéis do Brasil, os espumantes ali produzidos costumam apresentar frescor, intensidade de perfil aromático de frutas e uma acidez ideal para contrabalançar a própria doçura. Com os envelhecidos, promete ganhar ainda mais destaque.

A Vinícola Casa Perini também resolveu investir nesse tipo de produto. O diretor de marketing, Pablo Perini, explica que, na Perini, o espumante fica em contato com as cascas por 24h para adquirir aromas e sabores, além de ganhar mais intensidade de cor. A seguir, mais 120 dias em contato com as leveduras. O que concede notas de mel, nozes, damasco e uvas passas brancas.
O diretor de Ensino da Associação Brasileira de Sommeliers do Rio Grande do Sul e professor de Harmonização, Maurício Roloff, classifica esse tipo de espumante como uma joia ainda inexplorada, com um enorme potencial. Para ele, foi uma grande surpresa degustar um Moscatel envelhecido e ver como continuava vivo, com complexidade, lembrando os grandes vinhos passificados, e uma evolução aromática que definiu como “sensacional”.
Roloff acredita que esse produto é ainda para um público muito específico, porque é difícil de explicar e vender, uma vez que as pessoas enxergam o espumante Moscatel como jovem e de consumo rápido. O que, claro, não é o caso dos envelhecidos. Defende que é preciso começar agora a investir mais nos envelhecidos, para que, no futuro, conquistem o patamar de uma nova categoria reconhecida. Há ainda a dificuldade de encontrá-los no mercado, a não ser nas próprias vinícolas. Uma oportunidade pode ser em setembro, quando Farroupilha realiza o Festival Moscatel 2025.

Harmonização
Os espumantes moscatéis envelhecidos pedem pratos com sabores e texturas mais intensos, devido às notas de evolução e amadurecimento. O sommelier Maurício Roloff não recomenda acompanhar pratos agridoces, apesar de harmonizarem bem, porque a doçura presente no espumante pode torná-lo enjoativo. Sugere, então, acompanhar com:
- Queijos duros com mel
- Queijos azuis, como Gorgonzola e Roquefort
- Bolo de rolo
- Sobremesas com mel de abelha nativa
- Tábua de queijos com frutas secas
- Pastel de nata
- Tiramisù
- Sorvete de gorgonzola
- Doces de ovos
- Torta Marta Rocha
- Doces de nozes